Saiba o que é a Roda de Samba Macumbb
Mais de três décadas nos separam da Constituição Federal de 1988 que garantiu liberdade de culto a todos os brasileiros, mas a realidade e a prática são bem diferentes, mesmo após quase quatro décadas do diploma constitucional. É sabido que dentre as inúmeras influências musicais que deram origem ao samba - batuque, chorinho e lundu - estão os tambores das religiões de matriz africana. O ato de “tocar tambor”, muito antes de sua relação com o entretenimento e com estilos musicais, tem origem religiosa e até política (exemplo: os anúncios de líderes políticos e de guerra).
As religiões do Axé são, sem sombra de dúvidas, as mais intoleradas e vítimas de violências (seja num simples discurso, até depredações de templos, agressões e homicídios praticados contra os adeptos). Mas o SAMBA - ainda que tenha origem também nesses ritos religiosos - hoje em dia, é não apenas muito bem tolerado, como dignificado e aplaudido como patrimônio imaterial e cultural do Brasil. O samba, quando retorna às suas origens mais tribais e homenageia os tambores das religiões do Axé (vulgos tambores da macumba), suavizam a ira dos intolerantes que contagiados pelo ritmo dançam, socializam, se divertem, festejam.
Desta forma é inegável a relação dos tambores do Axé com o as manifestações culturais em que o samba está fortemente presente. Os sambas com temas voltados aos tambores do Axé - mesmo com todo preconceito sofrido por essas religiões - já emplacou sucessos inesquecíveis nas vozes de Clara Nunes, Alcione, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra e recentemente, nas vozes das “contemporâneas” Mariene de Castro, Roberta Sá, Fabiana Cozza e Aline Calixto. A partir daí a cantora Beaju e a produtora cultural Ju Bianchi, iniciaram o projeto Roda de Samba Macumbb, com produção musical de Maximira Luciano, em abril de 2023.
De lá pra cá, o projeto emplacou muitas edições. A cantora Beaju é conhecida nos palcos goianos por interpretar boa parte do vastíssimo repertório de samba dedicado às religiões de matriz africana. Essa música é marcada de elementos percussivos latentes que literalmente fazem tremer as estruturas do coração do povo. Além dos tradicionais instrumentos percussivos do samba (pandeiro, surdo e tamborim) são inseridos congas, atabaques, agogô, afoxé, ganzá, berimbau entre vários outros instrumentos alternativos e com remetência às formas tribais de cultos e entretenimentos. O público alvo é literalmente livre. Todas as idades podem sorver da cultura do samba voltado às suas raízes e origens históricas. Desde a mais tenra criança até idosos são contagiados pelos ritmos ecoados dos tambores.
Mas por que levar o “Macumbb” para os palcos é tão importante para a comunidade? A intolerância religiosa segue galgando largos passos, num país onde terreiros religiosos são destruídos diuturnamente. A música e a arte tem a função social de confrontar esse preconceito. O samba é preponderante nessa jornada, pois quando os ritmos brasileiros se conectam à alma do povo, a intolerância não encontra lugar. Esses ritmos tem total ligação com os tambores que ressoam nos terreiros religiosos, pelos motivos aqui já expendidos e pelo repertório pessoal da cantora Beaju - que já é conhecida nas rodas goianas como “a macumbeira do samba”.
Em fevereiro de 2024, a roda de samba Macumbb apresentou o Macumbloco no carnaval da Cidade de Goiânia - no palco principal (Praça Cívica), para mais de 25 mil pessoas.
Para a cantora Beaju, interpretar esse nicho dentro do samba, por ser uma mulher adepta do candomblé, é uma missão ao mesmo tempo prazerosa e desafiadora. Na roda de samba Macumbb o público, inequivocadamente, poderá se preparar para grandes emoções, toques variados, tambores pujantes, variações rítmicas - pois é essa a visão que Beaju sobre os tambores do Axé: uma fantástica miscelânea de brasilidades encontrada em um set list de uma intérprete brasileira.
Ter a chama de uma das origens mais incríveis do samba acesa nos palcos é empoderar as culturas que mais sofrem preconceito nesse país, é reverberar a alegria e o balanço do samba, ijexá, afoxé, da MPB - é vibrar a mais potente energia que une um povo, que enfraquece a violência, que empodera minorias, que faz ecoar o grito contido de amor à música, à cultura e à arte que habita o mais resistente íntimo de qualquer alma brasileira.
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